Eu trago na memória os cheiros e gostos
Da infância trago medos e sustos
Aprendizado e rusgas
Tombos e tormentos
Uniformes de escola, sapatos de borracha
As cores das roupas vincadas
Cada rosto que cruzou minha rua
No caminho de ida ou de volta
Para casa ou trabalho
Para escola, missa ou enterro
Não vejo mais a rua do meu tempo
Desde muito
Mas ela ainda é um caminho dentro de mim
Quero ter sempre a lembrança destes tempos
Eles são meu começo e minha infância viva
Que não passa nunca,
Os sonhos me transportam.
Eu trago na memória o tropel
E o som da matilha
Os revoar dos pombos no foguetório,
Os sinos tocando,
A missa assistida da porta da igreja
De costas para o altar e de frente para a pracinha
Que nos convida para o futebol
Dentro da igreja as beatas
Fora da igreja os bebuns.
O cruzeiro desabando nas cabeças
As buzinas na procissão de carros,
A comida da pensão,
Os bêbados, as beatas e os moleques
Isto é, todos nós.
sábado, 19 de março de 2011
Manter a chama
Todos os dias alguém se vai
E não nos encontramos lá para as despedidas
Não estendemos a mão
Ou a face para o beijo,
Mas a lágrima que rolará
Vai nos transportar para o momento
Para aquele exato momento
Quando a mão falhava no vazio
A palavra não era ouvida
Pois o silêncio era o dono do instante
A palavra que hesitou pela garganta
Agora está travada em nós
E não será dita
Não será ouvida
Não existirá
Mas nós continuaremos
Chama acesa no furacão
E não nos encontramos lá para as despedidas
Não estendemos a mão
Ou a face para o beijo,
Mas a lágrima que rolará
Vai nos transportar para o momento
Para aquele exato momento
Quando a mão falhava no vazio
A palavra não era ouvida
Pois o silêncio era o dono do instante
A palavra que hesitou pela garganta
Agora está travada em nós
E não será dita
Não será ouvida
Não existirá
Mas nós continuaremos
Chama acesa no furacão
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